A senhora do fim de tarde

Debaixo daquele guarda-chuva guarda-se uma mulher. Olhos escondidos pelos óculos escuros. Lábios escondidos pelo batom vermelho, mais vermelho do que o sol de fim de tarde. Os sapatinhos, não de cristal, brilham de uma lama pisada há poucos minutos. Caminha como se um indicador a empurrasse, com pequenas sacolas nas mãos.

Olha para trás, desce, com o seu indicador, os óculos até a ponta do nariz. Faz cara de espanto. Apressa os passos.

O Natal já chegou desde outubro, praticamente. O Sentido dele ainda não.

Existem sentidos que engolem outros. Esses não são os melhores. Os sentidos perfeitos são os que deixam que os outros permaneçam, porque sabem que são perfeitamente perfeitos.

Pegou a mochila, devorada pelo tempo. Abriu a porta e se deu de cara.

Está nos livros recentes de Comunicação: escrever muito, em blog, é sentença de morte. Ninguém agüenta, inclusive eu, muito tempo lendo na telinha. Quem sou eu, então, para escrever mais de mil palavras e prender meu leitor? Na verdade, quem é este leitor, existe?
Lendo algumas críticas de livros (que consomem algumas páginas e árvores), penso: será mesmo que existem tantos leitores assim? Quem lê? E, lá vai o clichê, atenção: quem lê o quê? Eu, tão reticente e cabrero com essas coisas de auto-ajuda, pareço copiá-las. Em seis linhas, já escrevi alguma coisa importante?
Voltemos, então, ao início deste lenga-lenga (não sei se tem hífen). Como saber e escrever o que é importante em tão poucas linhas se muitas podem ser um tiro neste blog? Tiro o que disse?

O homem dos pombos

De longe, multidão de pombos. De perto, surpresa, um homem no meio deles. Em plena praia de Boa Viagem, um senhor aparentando suas 60 primaveras, de pernas sempre cruzadas, alimenta suas aves, companheiras de um sol escandalte.
Com aquele ar de "não estou nem aí" e, ao mesmo tempo, "olhem para mim", o senhor de óculos escuros permanece imóvel, como se posasse para uma fotografia. O problema é aquietar os pombos, ágeis e inconstantes como as ondas à frente.

Quem "perde" tempo lendo palavras? Gastar os neurônios juntando letras e formando sentidos ou desconstruindo-os? As palavras...